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Da periferia aos grandes palcos: duas décadas das batalhas de rima cariocas

  • Foto do escritor: Revista Palácio
    Revista Palácio
  • 24 de nov. de 2024
  • 7 min de leitura

Como o ‘freestyle’ contribui para o crescimento do movimento Hip Hop no Brasil


Por Eduardo Cavalcanti e Vinícius Araujo


“Eu vi o movimento dando oportunidade para pessoas que não tinham nada. As batalhas de rima mudaram a minha vida e a de vários ‘menor’ que andavam comigo. Foi a virada de chave mais importante na minha vida, por isso eu tatuei.” Afirma Buddy Poke, orgulhoso ao mostrar sua tatuagem em homenagem à Batalha do Tanque.


Buddy Poke mostra a tatuagem que fez para representar a importância das batalhas em sua vida. (Foto: Eduardo Cavalcanti)
Buddy Poke mostra a tatuagem em homenagem à Batalha do Tanque (Foto: Eduardo Cavalcanti)

Em 2009, Matheus Theobaldo assistiu pela primeira vez uma batalha. As rimas diferenciadas e a sagacidade de Douglas Dim e Nissin, pela Liga dos MC’s, inspiraram o nascimento de Buddy Poke, nome escolhido por Matheus, além da criação de suas primeiras rimas freestyle. Como todo moleque da periferia, gostava de ouvir funk e rimar com os sucessos da época.


Desde o início, se destacou nas rodas que participava e se tornou um dos principais nomes da cena estadual. Três anos depois de assistir pela primeira vez a uma batalha pela internet, Buddy foi o primeiro MC a representar o Rio de Janeiro no Duelo Nacional de MC’s, na edição inaugural.


Por meio da ‘correria’ das ruas, Matheus pôde sonhar com o crescimento na carreira. Assim, gravou músicas de sucesso, como Os Novos Donos, Dia de Caça e Reunião de Negócios, com parceiros que fez na caminhada: Xamã, PK e Knust. Hoje, o rapper também é empresário no ramo musical.


O nascedouro das batalhas


Uma geração que cresceu ouvindo as mensagens de Sabotage, MV Bill, Racionais MC’s e Facção Central, no início dos anos 2000, encontrou nas batalhas de rima uma nova forma de organização no movimento Hip Hop. Jovens como Buddy Poke passaram a ter a oportunidade de mostrar seu talento por meio das batalhas. Naquele momento, o Hip Hop ganhou mais espaço, inclusive em veículos de comunicação tradicionais.


A galera das periferias começou a se reunir para rimar livremente, em busca dos melhores versos contra os adversários. Esse movimento repetia o fenômeno já estabelecido nas periferias dos Estados Unidos, onde o Hip Hop foi criado. No Rio de Janeiro, começou a se firmar com a criação da Batalha do Real, em 2003. Idealizada por Aori e Marechal, o local escolhido foi a Lapa, região que se caracterizou por uma forte presença do Rap na década anterior.

Filipe Ret e Marechal disputaram a Batalha do Real no passado. (Foto: Reprodução/ Twitter Filipe Ret)
Filipe Ret e Marechal disputaram a Batalha do Real no passado (Foto: Reprodução/ X Filipe Ret)

O Real se tornou berço das batalhas de rima cariocas. Nas edições, cada MC contribuía com um real, e assim surge o nome. O vencedor da noite saía com o dinheiro arrecadado, muitas vezes, valores baixíssimos. O dinheiro não era nem de longe a principal motivação dos participantes, o verdadeiro prêmio era ter o melhor flow e ser reconhecido pela rapaziada. Hoje, muitos declaram publicamente o orgulho de ter participado da construção de um movimento revolucionário dentro do Hip Hop, como comentou o rapper Filipe Ret à VICE, sobre o sentimento em relação à Batalha do Real.


A Batalha do Real também foi responsável pela criação de novas batalhas, como a Liga de MC’s e a Batalha do Conhecimento. A Liga de MC’s reunia participantes de várias partes do Brasil. Assim, nasciam as primeiras disputas interestaduais de rima. Posteriormente, a Liga se transformou no Duelo Nacional de MC’s e migrou para Minas Gerais. A Batalha do Conhecimento, criada por Marechal, foi inovadora. O objetivo era debater temas relevantes para a sociedade, o que incentivou os participantes a estudarem mais sobre os possíveis assuntosda noite, como racismo, aborto e legalização das drogas.


A importância do movimento na integração dos jovens periféricos, a versatilidade das batalhas são importantes ferramentas de mobilização política e social. O movimento tem o poder de promover maior busca por conhecimento e de afastar jovens da periferia da criminalidade. A Batalha do Real foi diretamente responsável por estabelecer uma cena diversa dentro do movimento carioca, contando com diferentes tipos de batalhas e MC’s de todo o país. Por conta de seu pioneirismo e relevância, foi premiada com a Medalha Tiradentes, a maior honraria da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).


Resistência e inclusão


Ao longo de sua história, as batalhas e o movimento Hip Hop foram marginalizadas pelo poder público. No entanto, os organizadores resistiram e permaneceram na luta pelo direito à existência desses eventos.

As batalhas são responsáveis pela inclusão de todos públicos do público aos participantes (Foto: Eduardo Cavalcanti)
As batalhas são responsáveis pela inclusão de todos públicos do público aos participantes (Foto: Eduardo Cavalcanti)

As rodas culturais sobreviveram a todo tipo de repressão, passaram de uma batalha entre MC’s e se transformaram numa perspectiva de melhoria de vida para os jovens periféricos. A inspiração que o movimento Hip Hop transmite para essa galera, que foi reprimida no início da cultura, é de resistência. No sol, na chuva, no claro e no escuro, o público de Rap também foi fundamental para o crescimento do movimento. Ao longo dos anos, as rodas culturais também se mostraram espaços de acolhimento a todo tipo de gente, independente da origem, gênero ou cor. A mensagem é de igualdade, não só no campo das ideias, mas nas ações. Projetos sociais, como bibliotecas comunitárias, nascem a partir deste movimento cultural. A inclusão é uma prática indispensável por parte do movimento, que busca apoiar as minas, os manos e as monas desde sempre.


“O Hip Hop por si só é uma política pública. Desde o momento em que você ocupa um espaço público para promover a arte e a cultura, já se tornou uma política pública, coisa que há 60 anos a gente era reprimido, torturado e assassinado na época da ditadura. A política pública serve para isso, conscientizar sobre o movimento social que a gente faz na região.” O mestre de cerimônia da Batalha Marginow, Da Ira, passou o recado sobre a relevância do movimento.

Da Ira vive da cultura Hip Hop há mais de 10 anos (Foto: Eduardo Cavalcanti)
Da Ira vive da cultura Hip Hop há mais de 10 anos (Foto: Eduardo Cavalcanti)

Reconhecimento tardio


Após anos de trabalho árduo, as batalhas de rima ganharam espaço e passaram a receber o apoio de instituições públicas. Mesmo tardiamente, a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro começou a fomentar em 2014, quando implementou o Programa Ações Locais, com o objetivo de auxiliar as rodas culturais que estavam se  popularizando por toda cidade.


A partir do primeiro edital do programa, o município investiu R$ 40 mil para cada uma das 14 rodas culturais contempladas. No ano seguinte, o número de projetos que receberam apoio diminuiu para oito, mas o valor individual a ser recebido pelas batalhas foi mantido.


Com a mudança de governo em 2017, o fomento voltado ao Hip Hop foi interrompido. As iniciativas contempladas pelo município receberam o valor prometido pelo edital de anos anteriores apenas em 2020. Nesse ano, um maior número de projetos foram beneficiados, mas o valor foi reduzido para R$ 13 mil cada.


Segundo a Coordenadora de Territórios da Secretaria de Cultura do município, Cintia Monsores, a troca do governo atrapalhou os incentivos relacionados à cultura, principalmente ao movimento Hip Hop.

O incentivo público é essencial para o prosseguimento das batalhas (Foto: Vinicius Araujo)
O incentivo público é essencial para o prosseguimento das batalhas (Foto: Vinicius Araujo)

“Infelizmente as políticas não são continuadas, dependendo do governo que seja eleito, o investimento pode ser diminuído ou extinto” afirma Cíntia, que também  informa a intenção da Prefeitura em contribuir para a continuidade dos projetos a longo prazo e pretende investir valores superiores aos R$ 13 mil pagos anteriormente.


No Programa de Ações Locais, retomado em 2023, a quantidade de projetos auxiliados diminuiu, mas houve um aumento na verba destinada, que varia entre R$ 40 mil e R$ 80 mil para cada. Segundo a coordenadora, o município entende que essas rodas merecem uma quantia maior como reconhecimento aos seus feitos.


Além do auxílio financeiro promovido pelos incentivos à cultura, em 2018, o Hip Hop conseguiu uma importante conquista. O movimento foi reconhecido pelo estado do Rio de Janeiro como Patrimônio Cultural Imaterial, segundo a lei 7.837/18.


A lei também determinou que eventos e manifestações artísticas da cultura sejam realizados sem regras discriminatórias. A proposta prevê que a Secretaria Estadual de Cultura deve apoiar iniciativas ligadas ao tema. Hoje, as batalhas são apoiadas graças a editais como o Rua Cultural RJ, mas que não é exclusivo ao movimento Hip Hop.

Pela falta de iniciativa pública, muitas batalhas tornam suas edições mais escassas ou deixam de realizar (Foto: Vinicius Araujo)
Muitas batalhas tem edições mais escassas por falta de orçamento (Foto: Vinicius Araujo)

O lançamento do Programa Estadual de Batalhas Educacionais de Rima foi mais uma conquista. A proposta planeja ações do governo na promoção da formação, capacitação e divulgação ligadas às batalhas. Segundo a lei, o estado deve promover e patrocinar batalhas de rima que devem acontecer ao menos uma vez por mês durante todo o ano.


Isso é roda cultural e o que vocês querem ver?


Nos últimos anos, a cena das batalhas de rima passou por uma transformação. De grandes palcos e eventos, as batalhas migraram para espaços públicos, como conta Alan Freestyle: “O movimento das rodas culturais começou em 2009/2010. As batalhas já existiam, mas não havia essa prática da galera ocupar uma praça pública e geral combinar de estar ali no mesmo horário pelo Facebook. As batalhas eram mais eventos”.

Allan Freestyle é organizador da Batalha do Coliseu (Foto: Eduardo Cavalcanti)
Allan Freestyle é organizador da Batalha do Coliseu (Foto: Eduardo Cavalcanti)

O desenvolvimento das batalhas está diretamente ligado aos avanços tecnológicos e ao maior acesso da população à internet. A organização pelas redes sociais e a popularização dos vídeos fizeram com que milhares de jovens conhecessem o movimento, além de torná-lo tão popular.


Rômulo Vieira, doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense e pesquisador sobre Rap e cultura digital, comenta o fenômeno das redes e sua cooperação para o movimento – “A emergência das batalhas de rima no começo dos anos 2000 coincide com o surgimento das redes sociais, principalmente o YouTube, que foi crucial para a difusão, ressignificação das batalhas de rima e consumo das batalhas de rima”.


Segundo Rômulo, essas plataformas permitem que as batalhas continuem a ser assistidas, debatidas e disseminadas mesmo após os eventos presenciais. Além disso, a digitalização do Brasil, um dos países com mais usuários da internet, também potencializou essa dinâmica.


A Roda Cultural de São Gonçalo é o maior exemplo deste fenômeno. Inaugurada em 2011, popularizou-se por todo o país em meados de 2015 com as rimas voltadas para a “gastação”, que consiste em zoar seu adversário com rimas criativas. Esse estilo descontraído chamou a atenção de jovens de todo o país que assistiam aos vídeos pelas redes sociais e atraiu milhões de visualizações.

O Tanque revelou Xamã, Orochi, Pelé MilFlows, Jhony MC e outros grandes nomes da geração do Rap (Foto: Reprodução/YouTube)
O Tanque revelou Orochi, Pelé MilFlows, Jhony MC e outros grandes nomes da geração do Rap (Foto: Reprodução)

Por meio do alcance e do engajamento conquistado pela Batalha do Tanque, tatuada por Buddy Poke, muitos jovens conseguiram oportunidades de melhoria de vida. Dentro da cena do rap, há uma forte presença de artistas que deram seus primeiros passos na Roda Cultural de São Gonçalo e hoje ocupam os palcos dos principais festivais de música do país.

Os tempos áureos do Tanque, que já foi a batalha mais importante do Brasil, se passaram, mas ainda têm seu devido prestígio e respeito por todos os praticantes da cultura Hip Hop. MC Orochi, que começou sua carreira na Roda Cultural de São Gonçalo, ajudou a popularizar a organização e com a Mainstreet, sua gravadora, assumiu a organização do evento.


Atualmente, a batalha segue fazendo sucesso na Praça dos Ex-Combatentes, no bairro Patronato, toda quarta-feira, às 19h30. Os jovens talentos da nova geração continuam atraindo a atenção com um microfone nas mãos e MC’s da velha guarda aparecem, por vezes, para relembrar os velhos tempos da Batalha do Tanque.



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