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Da engenharia ao ramo da beleza

  • Foto do escritor: Produção Executiva Revista Palácio
    Produção Executiva Revista Palácio
  • 9 de dez. de 2024
  • 9 min de leitura

Atualizado: 23 de mar.

Africana que veio ao Brasil com o sonho de se formar em uma universidade acaba virando trancista profissional



Berenice durante um de seus atendimentos                 (Reprodução: Instagram/@berebraids)
Berenice durante um de seus atendimentos (Reprodução: Instagram/@berebraids)

Já imaginou sair do seu país de origem com a intenção de entrar em uma universidade, se formar, atuar na profissão, e no final acabar trabalhando como trancista? Foi o que aconteceu com a Bérénice Généreuse Fifamin Kpocheme, 34 anos, africana vinda do Benin. Ela veio para o Brasil em 2012, com a intenção de se formar como Engenheira Química e atuar na profissão. “Eu concluí a formação na Uerj, porém hoje me tornei trancista por conta das demandas. Acabei me apaixonando mais pela estética das tranças.” Atualmente ela é dona de um salão afro, um dos mais bem avaliados do país, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, chamado de Bere Braids, com mais de 30 mil seguidores no Instagram. A trancista já atendeu até famosos, como, por exemplo, a influenciadora digital Camilla de Lucas.


Benin é um país localizado na África Ocidental, com pouco mais de 13 milhões de habitantes. “No meu país eu já trançava desde pequena. Na verdade, a cultura da trança é passada de geração para geração, de mãe para filha. Então a gente acaba crescendo e tendo esse conhecimento, não tem um curso como geralmente tem aqui no Brasil.” A cultura das tranças, apesar de estar presente no Brasil e na África, é muito diferente em cada local. Se fazer tranças no Benin já é algo que vem de berço, no Brasil é uma atividade mais voltada para a estética. Gabriela Souza, carioca, trancista e estudante de Educação Física da UFRJ, conta como se inseriu nesse mundo: “Comecei a fazer trança no meu próprio cabelo  porque a minha trancista voltou para a Angola depois de terminar os estudos aqui. Como eu não consegui achar mais ninguém que não me machucasse, comecei a fazer em mim mesma”. 


Berenice veio para o Brasil através do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), criado em 1965. Nesse programa, o governo brasileiro oferece anualmente vagas gratuitas para graduação completa no país, sendo a única obrigatoriedade aprender a língua portuguesa, o que foi um desafio para ela. “Você tem que aprender a falar português do zero. Eu cheguei aqui sem nem saber falar bom dia”, conta. Apesar de ter vindo sem nenhum familiar, ela teve a companhia de mais cinco colegas de turma do Benin, que também tiveram dificuldades: “Chegamos, eram seis pessoas sem saber falar português. A gente aprendeu a falar aqui no Brasil, na marra”. Mesmo com o início conturbado, ela é muito grata ao programa: “O governo brasileiro cobriu a passagem, a estadia e ofereceu esse curso para a gente de forma gratuita. Então, a única obrigação que a gente tinha era estudar e passar nessa prova”. As seis africanas tiveram sucesso na faculdade. “Hoje tenho colegas que são designer de áudio e vídeo, médica, farmacêutica. Todas nós nos formamos.”


A influenciadora digital Camilla de Lucas já visitou a Bere Braids                     (Reprodução: Instagram/@berebraids)
A influenciadora digital Camilla de Lucas já visitou a Bere Braids (Reprodução: Instagram/@berebraids)

Sair do seu país de origem sozinha, apenas com o sonho na bagagem é muito difícil, mas Berenice teve uma surpresa positiva ao chegar no Brasil. “Quando eu cheguei fui muito acolhida, foi a primeira coisa que falei para a minha mãe, o Brasil é um país muito acolhedor. Todas as pessoas que viam que éramos de fora queriam nos abraçar. Eu nunca tinha visto isso antes, as pessoas são muito legais, sorridentes, nunca senti nenhuma rejeição”, lembra. A sensação de acolhimento no Brasil não é individual da trancista. De acordo com o Traveller Review Awards 2023 (prêmio baseado em avaliações de viajantes) da Booking.com, o Brasil está entre os 10 países mais acolhedores do mundo, ocupando a nona posição. “Eu andei muito sozinha, então eu sempre me perdia nas ruas, e com meu português quebrado, sem saber nenhuma palavra. Eu pedia a ajuda das pessoas, elas me ajudavam e até queriam me levar nos lugares”, conta.


Ao chegar no Brasil, a beninense ficou hospedada na Cidade Universitária da UFRJ, localizada na Ilha do Fundão, e a alimentação também era lá, no restaurante universitário. Ao longo do tempo, não só a comunicação se tornou um empecilho,  como a situação financeira. “Tive problema com a questão de alojamento. Quando o governo brasileiro trouxe a gente, só tínhamos um ano para nos beneficiar daquilo. Depois de acessar a universidade, no meu caso, a Uerj, a gente tinha que se virar. Sem emprego, sem parente e sem nenhum apoio, a convivência foi se tornando muito mais difícil. Eu dependia da ajuda dos meus pais para me manter aqui.” Foi durante esse período de luta para sobreviver que Berenice pensou nas tranças como uma forma de arrecadar dinheiro e se sustentar no Brasil. 


“Primeiro eu comecei a fazer em mim, e isso começou a chamar a atenção das pessoas na faculdade. Eu comecei a fazer de forma gratuita, por carinho mesmo. E as pessoas diziam que no Brasil era difícil achar esse tipo de penteado. Por amizade eu oferecia tranças para as minhas amigas e elas faziam a propaganda. Quando elas saíam, a família e amigos perguntavam, e elas sempre me indicavam, mas eu não tinha coragem de cobrar, porque eu vim para estudar e me tornar engenheira, e não para fazer tranças. Mas depois que vi o aperto, tomei coragem e comecei a atender em casa”, conta. Durante a faculdade, Bere conseguiu estágios, até mesmo na Fiocruz, como engenheira química, mas engravidou no fim da graduação. Com a gravidez, ela não teve tempo de esperar um emprego na área. Então, fez o seu talento nas tranças virar profissão. “Em 2019 comecei a atender em casa de forma frequente, fazia mais ou menos três pessoas por dia.”


A solução dos problemas financeiros surgiu, mas, com o sucesso, outro problema tentou atrapalhar o progresso da engenheira: “Aqui  no Brasil a realidade é um pouco diferente. Se fosse no meu país, atender dessa forma seria normal, aqui não. Tem condomínio, têm regras que impedem o inquilino de fazer o que quer. O proprietário chegou em mim e falou: Bere, está incomodando a galera com muita visita aqui em casa, você precisa parar com isso”. Naquela época, ela dizia já estar ganhando mais de um salário mínimo por dia. Por isso, teve que pensar rapidamente em uma solução. “Comecei a procurar um lugar para poder alugar, mas não achava. Até que um dia o meu esposo chegou com a notícia de que tinha um espaço pertinho de casa. Eu falei, então pronto, é nosso.” Após a conquista do imóvel, localizado no bairro do Riachuelo, zona norte do Rio de Janeiro, que foi rapidamente reformado com muita ajuda de seu marido Alcino, Berenice virou oficialmente a proprietária do salão afro Bere Braids. 



Quando Bere finalmente se viu com a vida financeira estável, surgiu uma questão pessoal: qual seria a reação da família ao saber que ela não exerce a profissão de engenheira química? “Eu mesma fiquei com vergonha, sair de engenheira para trancista, não foi para isso que a minha família me mandou para cá. Eu fazia escondido, no meu país é normal, mas quando você sai de lá, as pessoas criam a expectativa de que você se torne um médico, engenheiro, farmacêutico, e não trancista”, conta. Ela só teve coragem de dar a notícia depois que se formou, e quando viu que as tranças realmente estavam dando lucro. “Abri uma empresa, mas não tem nada a ver com engenharia, eu estou fazendo cabelo”, revelou dessa forma para seus familiares. Foi um choque de realidade para eles, porque era inesperado, mas recebeu total apoio: “Sabendo que sou uma pessoa muito centrada, a minha família confiou em mim. Eles estão vendo os frutos, os benefícios, que tenho uma vida próspera fazendo tranças aqui no Brasil. A minha família se adaptou vendo a mudança da minha realidade”.


As tranças não mudaram somente a vida de Berenice. O penteado afro-brasileiro já não é apenas uma potência estética há muito tempo. O surgimento de salões voltados para esse estilo cresce cada vez mais. Hoje, ser trancista com certeza já é uma profissão. Gabriela Isaias, doutoranda no programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura (PPGCOM/ECO-UFRJ) da UFRJ, venceu o Prêmio Compós Eduardo Peñuela 2023, na categoria Melhor Dissertação com o trabalho "O comprimento do desejo: cabelos longos e as performances negras do feminino". Para ela, a valorização das tranças e da cultura afro-brasileira como forma de profissão é resultado da resistência de diversas gerações de pessoas negras.


“Esse novo olhar que floresceu sobre a cultura negra nos últimos tempos foi fruto do trabalho árduo de pessoas que vieram muito antes de nós. E não falo só dos ancestrais e da gente que lutou durante séculos no período colonial para que hoje estivéssemos vivos. Mas também de uma ancestralidade recente, de 60, 50 anos atrás, que educou, conscientizou várias gerações de brasileiros para que hoje nós conseguíssemos simplesmente encarar o espelho com o queixo erguido, por exemplo. As tranças carregam uma história cultural imensa. Ver cada vez mais gente finalmente enxergando a beleza que esse penteado sempre teve (não só simbolicamente como também visualmente) é bonito, inspirador e faz com que cada vez mais trancistas consigam trabalhos e ainda mais pessoas se aproximem da estética afro”, conta a pesquisadora.


O processo das tranças é minucioso e demorado, e, muitas vezes, gera uma conexão ancestral entre a trancista e a cliente, que vai muito além da estética. “Pessoas que viveram há mais de mil anos atrás conseguiam enxergar o que hoje tão pouca gente vê: a preciosidade desse trabalho. Para trançar, precisamos de três mechas. Apenas isso. O resto é encanto. Acaso, história. Em resumo: a vida acontecendo... E daí você tem uma trança. E depois outra... E, quando você vê, está falando sobre a sua vida, conversando sobre memórias que você nem sabia que lembrava. Há uma certa magia que acontece ao tocar a cabeça de alguém e se deixar ser tocado. Há muito que se observar quando uma pessoa trança a outra. Principalmente quando uma mulher negra trança outra mulher negra. Esse tipo de cuidado, de trabalho com a autoestima de um povo que por séculos foi negado à condição humana, por exemplo, é delicado, é regenerador e tem valor inestimável”, diz a pesquisadora.


Cliente depois de ser atendida no salão Bere Braids                                                                                                                   (Reprodução: Instagram/@berebraids)
Cliente depois de ser atendida no salão Bere Braids (Reprodução: Instagram/@berebraids)

A relação de pessoas negras com as tranças, principalmente as mulheres, é de extrema delicadeza. Lu Medeiros, atriz e cantora, que adora mudar o visual, fala sobre a importância desses penteados em sua vida: “Trança para mim é autoestima, resistência, poder. Cada penteado que eu faço me dá um poder diferente. Buscar esse traço de ancestralidade mostra quem nós somos, fala sobre a nossa estrutura. É um sentimento de resistência, e mais ainda, mostrar que o ancestral é possível, a gente resgatar aquilo que os nossos antepassados usaram e vestiram, para o atual, e colocar em pauta. Sem falar da autoestima que a trança me dá. Quando eu visto a trança eu me sinto com presença, resgatar isso que meus antepassados usavam é muito importante, a gente afirmar o nosso passado. Hoje em dia eu uso muito pela praticidade, mas não esqueço o real significado. Eu fico na correria do dia a dia, mas quando me vejo no espelho lembro de tudo isso que falei”.


Para Gabriela Isaías, as trancistas ainda não têm o devido reconhecimento, e isso precisa mudar. “Eu fiz numerosas pesquisas sobre as origens das tranças africanas e em quase todas as sociedades que pesquisei, por mais diversas que fossem, havia (e, em várias, delas ainda há), uma pessoa no clã, geralmente as mulheres-chefe de cada família, que eram especialmente habilidosas com a preparação dos cabelos (é importante dizer que, nessas sociedades, os cabelos desempenham um papel significativo na identidade, status e estado civil de cada indivíduo). Estou fazendo esse pequeno retrospecto milenar pra dizer que, quando vejo profissionais como as/os trancistas não tendo o reconhecimento que merecem, sinto que não estamos honrando o nosso passado, nossas origens. É visível que mais ações devem ser tomadas para dar a esses trabalhadores o destaque que merecem.”


Atualmente Berenice tem oito funcionários. Ela se dedica de forma integral ao seu trabalho, e sempre busca oferecer o “Padrão de qualidade Bere Braids” para as suas clientes. “A casa fica cheia todos os dias, as pessoas estão solicitando o serviço. Eu levo muito a sério a formação da equipe, porque as pessoas que trabalham comigo têm que entregar exatamente a essência e a qualidade que eu costumo oferecer para os meus clientes.” Depois de todas as dificuldades, hoje, ela se orgulha de sua trajetória. “É uma coisa que prosperou. Eu consegui ter uma equipe, tenho uma gestora, um social media, as meninas que fazem a faxina e me ajudam aqui. Então, hoje em dia, deixa de ser a Bere empreendedora que trabalhava para comer, para uma empresa que é o sustento de outras pessoas. São oito funcionários hoje na casa que dependem desse salário.”


As tranças mudaram a vida da beninense por completo, e hoje ela é bem-sucedida e feliz graças ao seu talento. “Além da parte financeira, é muito bom fazer uma mulher feliz, levantar a autoestima dela. Às vezes a cliente chega aqui um pouco triste, e quando ela se levanta da cadeira e me dá aquele sorriso, um abraço, eu sinto que fiz parte da mudança dessa pessoa.” O trabalho de uma de trancista vai para além da realização de penteados, é a conexão entre a profissional e a cliente, é um momento de cuidado e ancestralidade. Essa profissão, que tem transformado a realidade de muitas pessoas, é um modo de vida: “Eu sou empresária, mas é tudo visado para a beleza e autoestima da mulher negra, do nosso povo. Estou trabalhando todo dia para isso”.


Tranças feitas por Gabi Souza                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   (Reprodução: Instagram/@lumedeirosssss
Tranças feitas por Gabi Souza (Reprodução: Instagram/@lumedeirosssss

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